Desde o prelúdio do ataque norte-americano e israelense ao Irã, era visível que não havia objetivo definido por parte de Trump no que tange a operação. O que se buscava atingir? Quais os motivos finais, quais os meios principais? Tudo era nebuloso, indefinido, e isso, agora, jogou os EUA num beco sem saída. O regime iraniano permanece estável, como era previsto.
As estruturas de segurança, que se moldaram justamente sob a pressão de sobreviver a sanções e tentativas de golpe, não sofreu fraturas, cisões ou deserções, mesmo sendo fortemente punidas– ou alguém me dirá que há um ataque maior ao moral de um exército do que assassinar seu Líder Supremo? Mas, essa noção última, que eu pontuo acima, é incompreendida pelos EUA, o que notavelmente ocasionou o fracasso da operação.
Não se compreendeu a natureza do regime, moldado justamente para que líderes sejam substituídos, com um louvor religioso ao martírio e sacrifício e forte sentimento antiimperialista. O que resta aos EUA agora que munições se esgotam, crises econômicas se sucedem com o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques pontuais continuam acontecendo a estruturas estratégicas no Golfo, apesar do aviso do Irã de fim da reciprocidade dos ataques?
Ou se escala o conflito, ou se encerra. A primeira opção causaria uma derrota desmoralizante, visto que o Irã ainda possui a estrutura de produção de mísseis, mantém um estoque de novos armamentos não utilizados e se beneficiou da tática de lançamento de projéteis menores, destruição de radares e, quando havia espaço, podia usar seu armamento mais pesado. E mesmo que se vença esse regime, o que virá após isso? Se com o assassinato de Khamenei não se obteve o efeito político desejado, quem garante que a opção militar abrirá a brecha para esse objetivo político? A segunda opção permitirá que o governo se recomponha, realize a reestruturação que já tem realizado durante a crise, continue com a produção de urânio enriquecido e reconstrução de suas capacidades nucleares e, de forma temporária, busque soluções para a crise econômica em que se encontra – motivo primário das manifestações do início do ano e ainda cruciais para a sobrevivência do regime, mas controlável, como vimos com a Guarda Revolucionária driblando sanções e se fortalecendo como um Estado dentro do Estado. As sanções, se aprofundadas agora, reforçaram o que as próprias tem feito desde sempre: fortalecerão a elite através do isolamento nacional, enfraquecerão parcialmente a sociedade civil – mas com pouca efetividade dada o nacionalismo causado pela guerra –, e ajudarão o governo a reforçar a economia de guerra que construiu ao longo dos anos. Nacionalismo, reestruturação e com certeza uma linha mais dura para que se obtenha um poder de dissuasão maior: é isso que espera os EUA caso o conflito seja encerrado. Digamos a verdade: os Estados Unidos perderam. Os objetivos políticos não foram alcançados. Superioridade militar, em outra via, não significa derrota militar, principalmente quando também se sofrem retaliações e não há clara rendição do inimigo. O que os EUA, materialmente, obtiveram como vitória? E Israel? A estratégia e os fins foram cumpridos? Não, pois nunca foram claros o suficiente para que fossem cumpridos. Os riscos estão aumentando: a regionalização da guerra para o Iraque, Líbano e Iêmen demonstram que conquistas sem objetivo se tornam somente operações vencidas, mas dentro de uma guerra perdida. E o que importa, ao fim, é o resultado da guerra.
(*) Marcelo Bamonte é Jornalista, Mestre em Ciências Sociais (PUC-SP) e pesquisador do GECI (Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais, PUC-SP). Pesquisador do Oriente Médio, Islã político e grupos paramilitares islâmicos









