O amor pode ser considerado medicina? Uma reflexão pela visão do Ayurveda

 

Por Nina Habib, terapeuta ayurvédica e fundadora da Taila Veda

Quando pensamos em medicina, dificilmente pensamos em amor. Pensamos em remédios, tratamentos, alimentação, exames, plantas, procedimentos. O amor parece pertencer a outro território: o dos sentimentos, dos relacionamentos, da poesia. Mas o Ayurveda me ensinou a desconfiar um pouco dessas divisões tão rígidas entre aquilo que acontece no corpo e aquilo que acontece dentro de nós. E talvez por isso exista uma pergunta que considero tão bonita: o amor pode ser considerado medicina?

Para responder, primeiro precisamos entender que, na visão do Ayurveda, saúde nunca dependeu de uma única coisa. Não basta perguntar o que uma pessoa come. É preciso compreender como ela digere. Não basta perguntar quantas horas dorme. É preciso entender a qualidade desse sono. Não basta observar o corpo. A mente, os sentidos, os hábitos, o ambiente e a maneira como aquela pessoa vive também fazem parte da leitura. O ser humano não é dividido em pequenos departamentos independentes. Talvez o amor entre justamente nesse espaço. Não como medicamento e muito menos como promessa de cura, mas como uma experiência capaz de modificar a maneira como habitamos o próprio corpo. Pense na diferença entre estar ao lado de alguém diante de quem você precisa permanecer em alerta e estar ao lado de alguém diante de quem você consegue descansar. Externamente, talvez nada esteja acontecendo. Internamente, são experiências completamente diferentes.

Existe no Ayurveda um conceito chamado Ojas. É uma palavra difícil de traduzir porque qualquer tradução parece pequena demais. Ojas é descrito como a essência mais refinada da nutrição dos tecidos e está relacionado à vitalidade, estabilidade e sustentação da vida. Ele não aparece de uma hora para outra. É o resultado final de uma longa cadeia de transformação. Aquilo que recebemos precisa ser digerido, transformado, assimilado e, só então, pode participar da construção dos tecidos e dessa essência mais sutil. Essa ideia sempre me pareceu extraordinária porque nos obriga a perguntar: o que realmente nos nutre? Podemos comer um alimento excelente e não digeri-lo adequadamente. Podemos também receber cuidado, presença e afeto e perceber como determinadas experiências parecem devolver algo ao corpo que não conseguimos medir simplesmente olhando para os nutrientes de uma refeição.

O Ayurveda possui outra imagem muito bonita quando fala do coração. Hridaya, o coração, não aparece apenas como uma bomba responsável pela circulação. Nos textos tradicionais, ele ocupa um lugar relacionado à consciência, à mente, aos sentidos e a Ojas. É um encontro entre dimensões que hoje costumamos estudar separadamente. O corpo sente. A mente participa. Os sentidos recebem o mundo. E aquilo que vivemos deixa uma experiência em nós. Talvez por isso seja tão difícil separar completamente a história emocional de uma pessoa da maneira como ela vive dentro do próprio corpo. Todos nós conhecemos essa experiência, mesmo sem saber explicá-la em termos ayurvédicos. Uma notícia pode tirar nossa fome. Uma preocupação pode mudar nosso sono. Um período de ansiedade pode alterar nossa digestão. Uma presença pode nos tranquilizar. Um abraço pode fazer o corpo relaxar antes mesmo que qualquer palavra seja dita. O organismo participa daquilo que sentimos.

Na visão do Ayurveda, os sentidos são portas pelas quais o mundo entra em nós. Nós nos alimentamos não apenas pela boca. Recebemos o mundo através dos olhos, dos ouvidos, da pele, dos aromas, dos sabores e das experiências que chegam à mente. Por isso, cuidar daquilo a que nos expomos também faz parte do cuidado. O ambiente em que vivemos, as conversas que repetimos, aquilo que vemos todos os dias e as relações que cultivamos não são elementos completamente externos a nós. De alguma maneira, precisamos processá-los. E talvez seja aqui que o amor se aproxime da ideia de medicina. Amar e ser amado não substituem nenhum tratamento. Mas uma vida na qual existe afeto, pertencimento, segurança e presença é uma experiência corporal diferente de uma vida permanentemente atravessada pelo medo, pela hostilidade ou pela solidão.

É importante também dizer que, quando falo de amor, não estou falando apenas do amor romântico. Amor pode existir na relação entre mãe e filho, entre amigos, entre irmãos, na comunidade, no cuidado com alguém, na maneira como preparamos uma refeição, no toque e até na relação que construímos conosco. Talvez uma das limitações contemporâneas seja ter reduzido uma experiência tão grande à relação entre duas pessoas. O Ayurveda fala muito sobre rotina porque compreende a força daquilo que fazemos repetidamente. E penso que isso também pode ser aplicado às relações. Um grande gesto de amor pode ser inesquecível, mas muitas vezes é a repetição das pequenas experiências de segurança que constrói intimidade: alguém que escuta, alguém que permanece, uma refeição compartilhada, uma mão que toca, uma conversa na qual não precisamos nos defender, um lugar onde podemos simplesmente existir.

Existe uma diferença entre excitação e nutrição. Nem tudo aquilo que provoca intensidade necessariamente nos sustenta. E essa talvez seja uma das reflexões mais interessantes que o Ayurveda pode oferecer quando pensamos no amor. Assim como acontece com a comida, aquilo que desejamos nem sempre é aquilo que nos nutre. Existem relações intensas que nos deixam exaustos e relações silenciosas que nos devolvem estabilidade. Prazer, desejo e nutrição podem caminhar juntos, mas não são sinônimos. Talvez amar também exija uma espécie de Agni, nossa capacidade de transformação. Porque não basta que algo chegue até nós; precisamos conseguir recebê-lo, processá-lo e integrá-lo. Duas pessoas podem viver a mesma experiência e transformá-la de maneiras completamente diferentes. Assim como acontece com o alimento, existe sempre aquilo que recebemos e existe aquilo que conseguimos fazer com o que recebemos.

Por isso, eu não responderia simplesmente “sim” à pergunta se o amor pode ser considerado medicina. Seria simplificar demais tanto o amor quanto o Ayurveda. Eu diria que o amor pode fazer parte daquilo que sustenta uma vida saudável porque o Ayurveda nunca compreendeu saúde apenas como ausência de doença. Saúde também envolve equilíbrio, capacidade de digestão e transformação, qualidade dos tecidos, estabilidade da mente, funcionamento dos sentidos e uma relação mais harmoniosa entre nós e aquilo que nos cerca. Talvez existam coisas que não chegam ao corpo em cápsulas, gotas ou pratos e, ainda assim, participam profundamente da maneira como vivemos dentro dele. Presença, segurança, pertencimento, toque, escuta, afeto. Talvez por isso algumas pessoas nos façam sentir como se pudéssemos finalmente descansar. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de compreender o amor pela visão do Ayurveda: não como aquilo que promete nos curar, mas como aquilo que também pode nos nutrir enquanto estamos vivos.

Sobre Nina Habib:

Nina Habib é terapeuta ayurvédica, escritora e fundadora da Taila Veda. Com estudos e imersões na Índia e formação em Wellness & Nutrition pela Harvard Medical School, dedica-se ao estudo e à difusão do Ayurveda, aproximando seus conhecimentos tradicionais da vida contemporânea.

 

Sou afiliado da Shopee. Comprando qualquer produto através deste link, você me ajuda a manter este site, sem custo extra para você: https://s.shopee.com.br/50TzKGLRUA

Descubra mais sobre jorgeroriz.com

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Descubra mais sobre jorgeroriz.com

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo