Por Jair de Souza*
Foi muito sintomático o recente caso em que o pré-candidato presidencial apontado pelo bolsonarismo recorreu a uma montagem falaciosa de uma fala de Lula com a intenção de acusá-lo de usar o pronome masculino “ele”, ao se referir à deputada Érika Hilton, uma pessoa conhecida tanto por suas posturas combativas em favor das causas populares como por sua identificação transsexual.
O mais curioso, ou melhor, o mais infame em relação com este episódio é que, na citada fala, Lula estava justamente fazendo um alerta sobre as ameaças a que todos vamos estar expostos no próximo pleito eleitoral, em função das potenciais manipulações por meio da inteligência artificial.
Assim, se ainda faltasse alguma coisa para corroborar a validade dessa preocupação, agora já não deve restar mais nenhuma.
No entanto, nesta oportunidade, não pretendo centrar-me especificamente nos perigos representados pelo uso mal-intencionado dos avanços na tecnologia digital.
Meu interesse é passar a questionar e debater a linha de atuação da extrema direita bolsonarista e as maneiras de enfrentá-la e derrotá-la.
O fato é que, independentemente de seu tradicional apego a práticas de tergiversação e engano, o bolsonarismo sempre se caracterizou por seu empenho em deslocar o foco da opinião pública dos temas que afetam verdadeiramente o nível de vida da totalidade da população para dirigi-lo a questões superficiais, secundárias, irrelevantes, ou seja, aquelas que nunca se proponham a alterar o quadro de injustiça social que predomina no país.
O bolsonarismo não tem absolutamente nada a ver com as aspirações sinceras do conjunto do povo brasileiro, menos ainda com as de suas maiorias trabalhadoras.
Portanto, seus agentes políticos sempre atuam visando garantir que os privilégios de classe dos exploradores sejam tidos como sagrados.
Para realizar esta tarefa, eles precisam lançar mão de todo tipo de artimanhas para atrair para seu lado grandes parcelas da população que também é explorada. E nada disto seria possível sem o emprego de sofisticadas técnicas de manipulação mental.
É importante que tenhamos ciência de que, por mais que os líderes visíveis do bolsonarismo sejam quase que invariavelmente figuras toscas, brutas e aparentemente imbecis, por trás delas há um sistema muito avançado que se utiliza de profundos conhecimentos sobre o funcionamento da psique humana e as formas de condicioná-la.
Então, nunca deveríamos aceitar a ideia de que nossa luta é travada essencialmente contra sujeitos como os integrantes do clã bolsonarista e seus parceiros mais achegados.
Elementos como esses últimos são, sim, importantes peças no esquema de sustentação dos privilégios de classe dos grandes capitalistas locais e seus patrocinadores dos centros imperialistas. Mas, e isto é de suma relevância, o grande adversário com o qual nos confrontamos está longe de resumir-se a esses personagens.
Portanto, cabe aos que nos identificamos com o campo nacional popular apontar os caminhos que conduzam as maiorias à compreensão do que realmente está em jogo. Não devemos culpar, nem responsabilizar, as massas populares por sua dificuldade em enxergar aquilo que, para nós, parece evidente e cristalino.
Não nos seria justo desconhecer ou ignorar o estado de enorme vulnerabilidade e tremenda dificuldade em que nossa gente se encontra.
Um militante realmente comprometido com as causas de seu povo precisa levar em conta a brutal carga desinformativa despejada a todo momento sobre pessoas que dispõem de escassos recursos para se defender.
A convicção de que temos um nível de consciência mais elevado do que a média predominante não terá nenhum sentido se não soubermos estender e generalizar esta capacidade de compreensão.
Por isso, toda vez que os expoentes da extrema direita bolsonarista entreguista e pró-imperialista venham com suas diatribes buscando desviar a atenção dos grandes tópicos de interesse das maiorias populares, nosso papel deve ser o de encontrar meios de aproveitar a própria tentativa de manipulação para, a partir da mesma, esclarecer ao povo o que os manipuladores pretendem ocultar.
Só para ilustrar com uma sugestão a este respeito, no caso desta manipulação da fala de Lula, temos plenas condições de demonstrar que o bolsonarismo quer fazer-nos esquecer do debate sobre sua subserviência imoral ao governo de Donald Trump e suas agressões contra os povos latinoamericanos.
Para tal, eles nem sequer se envergonham de recorrer a uma crítica à homofobia, apesar de serem eles caracterizados por seu raivoso sentimento homofóbico de classe. E faço questão de mencionar o “de classe”, porque sua homofobia só existe quando serve para defender o grande capital contra as aspirações populares.
Logicamente, como o bolsonarismo está a serviço dos grandes conglomerados que dominam as redes digitais, eles sempre contam com a vantagem de terem um impulso muito maior para a divulgação de suas mentiras. Mas, como o potencial da verdade é também muito superior ao da mentira, nossa principal tarefa é fazer que a verdade tenha o máximo de difusão possível.
Não é nada simples, mas seguramente é algo alcançável, desde que nos dediquemos com ardor a sua realização.
*Economista e mestre em Linguística
Publicado na Revista Forum
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